
Das sessões fica geralmente o pó ou o eco das palavras, às vezes fotografias ou gravações, desta ficou este desenho, de Marita Ferreira, tirado do blog da proponente e uma das recitadoras (a do meio, no desenho).


Álvaro de Campos
Alberto Caeiro está aqui como o acontecimento-fronteira da biografia de Campos - pois conheceram-se logo após essa viagem ao Oriente em que foi escrito “Opiário”, e os sonetos antes disto - ou seja, muito antes de Campos ser o homem lúcido capaz de escrever “Tabacaria”.
Desenho de Luz: Rui Oliveira e Nuno Meireles
Operação de Luz/Som: Rui Oliveira
Música: Piotr Ilitch Tchaikovski/Serguei Rakhmaninov
Duração aproximada: 55`
Descida ao poço
Sessão de Poesia
Leitura de " Indulgência Plenária", de Alberto Pimenta
Por Nuno Meireles
Domingo, dia 22 de Fevereiro, às 18h
Gato Vadio
(…)
tira-me daqui
tira-me daqui
tira-me daqui não sei se foste tu que disseste
não mexeste os lábios
nem sei se poderás continuar
as tuas trocas os teus desejos
entre os habitantes dos mundos invisíveis
se assim for
nem o Diabo impedirá
que o teu aroma nostálgico
continue a manifestar
a deusa
em todas as suas faces
humanas
(…)
Alberto Pimenta
Indulgência Plenária, Lisboa, &etc, 2007
esta cidade está moribunda
não foram sete hienas tresmalhadas
no clamor da avenida
ninguém pediu pela mulher que engana a carne
por um dia de canto
ouvem-se risos e os cafés estão cheios
gente soçobrada que não pára de beber o galão
de invectivar a tristeza
ou o azedume em fila de espera
na paragem do autocarro, a mulher das varizes
o homem do escarro,
o moço das Belas Artes
as mãos nos bolsos remoem pedras, paus e beatas
as mesmas pedras
os mesmos paus
as mesmas beatas
e o cheiro a kispo molhado não encobre a frialdade
nem a nortada
o pestilento riso da cidade
Júlio do Carmo Gomes
Nota: Gisberta Salce foi encontrada sem vida no dia 22 de Fevereiro de 2006 num prédio abandonado da cidade do Porto. Foi maltratada, humilhada, violentada até à morte. Alberto Pimenta escreveu "Indulgência Plenária" tendo presente Gisberta, a sua vida, a sua liberdade, a sua morte. A leitura integral do livro tem o consentimento do autor.

Tabacaria
de Álvaro de Campos
Leitura Encenada*
10 de Janeiro de 09
Tido como o poema emblema e síntese de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, Tabacaria é o contraste dramático de quem olha pela sua janela e pensa que um dia nada existirá, nem a língua em que escreve, nem a tabacaria de defronte, tão inútil uma coisa como a outra.
Publicado em 1933, na presença, vem assinalado com a data 15 de Janeiro de 1928. Tão próximos que estamos desse dia do mês, hoje marcamos o aniversário de um texto ficcionalmente pouco mais que octogenário.
*Esta é uma leitura encenada, i.e. a partir da geografia exterior e interior em que tudo acontece.
Fernando Pessoa, esse génio da simulação, convida-nos avidamente a ler em voz alta, a ser os seus poemas-dramas. Todo o seu acervo não é senão a dramaturgia mais intrincada e complexamente rica que terá visto o séc.xx português.
DIRECÇÃO/INTERPRETAÇÃO NUNO MEIRELES
ILUSTRAÇÃO DO CARTAZ (Pessoa) ANA TERESA FERNANDES
ILUSTRAÇÃO DO CARTAZ (Tabacaria) ANTÓNIO SANTOS
DESIGN GRÁFICO ENZO MEIRELES
DESIGN DE LUZ RUI OLIVEIRA E NUNO MEIRELES
OPERAÇÃO LUZ/SOM RUI OLIVEIRA
MÚSICA SERGEI RAKHMANINOV POR VLADIMIR ASHKENAZI
APOIO POETRIA – POESIA & TEATRO
AGRADECIMENTOS Dina Ferreira/Poetria; Enzo Meireles, António Santos e Ana Teresa Fernandes; Contagiarte.